{"id":1740,"date":"2018-09-11T10:57:51","date_gmt":"2018-09-11T13:57:51","guid":{"rendered":"http:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/?p=1740"},"modified":"2018-09-11T10:59:24","modified_gmt":"2018-09-11T13:59:24","slug":"a-ilusao-da-smart-city","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/?p=1740","title":{"rendered":"A ILUS\u00c3O DA SMART CITY"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"><em><strong>Por Marco Ant\u00f4nio Sousa Alves\/Subcoordenador do Projeto de Extens\u00e3o RE-HABITARE\/UFMG<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de hoje que o ser humano sonha com uma vida segura e organizada de maneira eficiente, em um ambiente confort\u00e1vel, moldado para atender \u00e0s suas necessidades e desejos. Esse sonho humano passa geralmente por uma reflex\u00e3o sobre a organiza\u00e7\u00e3o urbana e por uma s\u00e9rie de constru\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas de cidades. N\u00e3o \u00e9 diferente nos dias atuais. A emerg\u00eancia de novas tecnologias est\u00e1 intimamente associada a novos projetos urbanos, como as chamadas smart cities.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Smart city ou \u201ccidade inteligente\u201d \u00e9 o nome dado ao emprego integrado de tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o para trazer mais efici\u00eancia no uso dos recursos, mobilidade e servi\u00e7os de uma cidade, permitindo administrar hospitais, ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, transportes, tratamento de \u00e1gua, coleta de lixo, seguran\u00e7a p\u00fablica e outras atividades. O objetivo declarado consiste em oferecer maior bem-estar por meio de uma experi\u00eancia mais confort\u00e1vel, eficiente e segura da cidade, com um controle mais inteligente dos fluxos e uma securitiza\u00e7\u00e3o generalizada. O sonho mobilizado aqui consiste na constru\u00e7\u00e3o de uma vida social cada vez mais produtiva e harm\u00f4nica, com o m\u00ednimo de perda, de desperd\u00edcio e de preju\u00edzos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de smart city \u00e9 extremamente recente, remontando ao in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, quando a ideia de uma \u201cinternet das coisas\u201d (internet of things \u2013 IoT) come\u00e7ou a ganhar forma, apontando para uma experi\u00eancia de digitaliza\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o global capaz de ultrapassar o espa\u00e7o restrito da tela dos computadores para se estender \u00e0s coisas em geral e ao espa\u00e7o urbano. Em suma, a cidade inteligente nasce da possibilidade de grandes volumes de dados serem produzidos incessantemente por seus habitantes, infraestruturas e servi\u00e7os, por meio de uma arquitetura de rede de conex\u00e3o sem fio abarcante e fi\u00e1vel, etiquetas digitais geolocalizadas disseminadas nos mais variados objetos, sistemas de filtragem e tratamento do fluxo de dados e uso de realidade aumentada visando oferecer uma experi\u00eancia contextual enriquecida. Em posse desse grande volume de dados e das novas ferramentas da tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, a organiza\u00e7\u00e3o urbana passa a ser concebida como um espa\u00e7o constru\u00eddo de maneira automatizada e em tempo real, ajustando os fluxos e regulando diversas situa\u00e7\u00f5es: a rede de transportes, os sinais de tr\u00e2nsito, a distribui\u00e7\u00e3o de energia, o policiamento, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As grandes metr\u00f3poles do mundo j\u00e1 v\u00eam travando entre si uma intensa competi\u00e7\u00e3o no sentido de assumir a imagem de cidade global, criativa e conectada, apta a atrair investimentos, empresas e pessoas qualificadas. No dom\u00ednio da seguran\u00e7a p\u00fablica, por exemplo, encontramos diversas iniciativas, como o Centro de Opera\u00e7\u00f5es que foi implementado no Rio de Janeiro para fins securit\u00e1rios durante os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016 e que permanece em funcionamento, como um \u201clegado\u201d para a cidade. Outros projetos experimentais mais ousados e abarcantes v\u00eam sendo desenvolvidos, envolvendo a cria\u00e7\u00e3o exnihilo de novos espa\u00e7os urbanos, em geral conduzidos por cons\u00f3rcios privados e voltados para gigantescas zonas residenciais luxuosas, como vemos em Abu Dhabi (Masdar), na Cor\u00e9ia do Sul (Songdo), nos Estados Unidos (Pe\u00f1a Station NEXT e Babcock Ranch) e no Jap\u00e3o (Fujisawa Smart Town). Nesses projetos em andamento, sensores e c\u00e2meras monitoram diversas atividades, carros autom\u00e1ticos circulam pelas ruas, drones atendem chamados de emerg\u00eancia e milhares de objetos com etiquetas digitais conectam-se de modo a mandar informa\u00e7\u00f5es e conformarem um ambiente cada vez mais adaptado, climatizado, eficiente, seguro e confort\u00e1vel. Em suma, as cidades inteligentes constituem a maior utopia urbana contempor\u00e2nea, a imagem da urbe como um grande e eficiente rob\u00f4, o velho sonho de uma vida melhor permitida pelo avan\u00e7o ilimitado da tecnologia.<br \/>\nPerspectivas cr\u00edticas, contudo, apontam para o fato de que esse sonho pode, talvez, converter-se em um grande pesadelo. Nessas \u201ccidades inteligentes\u201d, somos tratados basicamente como consumidores ou usu\u00e1rios. Raramente somos vistos como cidad\u00e3os, no sentido de sujeitos livres que podem tomar parte nas decis\u00f5es coletivas. A governamentalidade algor\u00edtmica esvazia em grande medida o campo da pol\u00edtica, elimina o debate p\u00fablico e procura solucionar os problemas, incluindo a organiza\u00e7\u00e3o urbana, em termos apenas de efici\u00eancia, inova\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. Trata-se de uma esp\u00e9cie de nova tecnocracia digital que reaviva o sonho de resolver o problema da pol\u00edtica por meio da ci\u00eancia e da tecnologia, substituindo a delibera\u00e7\u00e3o pelo c\u00e1lculo. No lugar do \u00e1rduo e lento trabalho de constru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de uma vida em<br \/>\ncomum, a solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e eficiente das novas m\u00e1quinas inteligentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tecnologia muitas vezes oferece aquilo que acreditamos que queremos, ou que queremos acreditar que queremos. Jogando com as palavras, podemos dizer que a \u201cintelig\u00eancia\u201d dessa cidade sonhada talvez seja mais da ordem da esperteza, algo mais pr\u00f3ximo da malandragem, da ast\u00facia ou da capacidade de obter resultados vantajosos em curto prazo, mas sem necessariamente ser acompanhado de uma intelig\u00eancia mais abrangente. A express\u00e3o inglesa smart city pode, ali\u00e1s, ser perfeitamente traduzida por \u201ccidade esperta\u201d. O habitante dessa nova utopia de cidade parece mais propriamente um espertalh\u00e3o hi-tech teleguiado, um consumidor que abriu m\u00e3o de sua liberdade para viver confortavelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez as recentes tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o estejam apontando para outro tipo de experi\u00eancia urbana, que realiza alguns sonhos associados ao conforto, \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 efici\u00eancia, mas traz consigo uma s\u00e9rie de novos desafios e problemas at\u00e9 ent\u00e3o insuspeitos. Ao inv\u00e9s de incentivar o compartilhamento do comum, a livre circula\u00e7\u00e3o e a sensibilidade \u00e0 alteridade, a smart city privilegia o espa\u00e7o personalizado, o comportamento dirigido e a repeti\u00e7\u00e3o do mesmo. Podemos at\u00e9 viver confortavelmente neste mundo moldado para cada um de n\u00f3s, mas pagamos caro por essas facilidades. Talvez estejamos sacrificando nossa liberdade, no sentido de uma a\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, espont\u00e2nea, deliberada, refletida, capaz de transgredir ao que \u00e9 dado e resistir ao que \u00e9 imposto, trilhando assim novos e imprevis\u00edveis caminhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marco Ant\u00f4nio Sousa Alves\/Subcoordenador do Projeto de Extens\u00e3o RE-HABITARE\/UFMG N\u00e3o \u00e9 de hoje que o ser humano sonha com uma vida segura e organizada [&hellip;] <span class=\"read-more-link\"><a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/?p=1740\">Read More<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1742,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[9],"class_list":["post-1740","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-moradia-adequada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1740"}],"collection":[{"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1740"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1740\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1744,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1740\/revisions\/1744"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1742"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1740"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1740"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rehabitare.direito.ufmg.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1740"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}