Apesar do conceito moderno, que até lembra as construções futuristas do desenho animado Os Jetsons, com janelas envidraçadas na altura das nuvens, projetos com torres cada vez mais altas propostos para Porto Alegre – edifícios de alto padrão que superam os limites do regramento urbano – não ajudam a solucionar um grande problema da capital: a demanda por habitação popular.
No ano passado, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA) avaliou e aprovou dois Estudos de Viabilidade Urbanística (EVUs) de projetos de magnitude inédita na cidade: um empreendimento da Melnick no bairro Santa Cecília e uma construção do Zaffari no Praia de Belas. Juntas, as duas iniciativas imobiliárias vão erguer oito torres de uso comercial e residencial, todas elas superando o máximo de 52 metros de altura previsto no Plano Diretor. O edifício mais alto, a ser erguido próximo à Praça Itália, entre as avenidas Borges de Medeiros e Praia de Belas, terá 130 metros de altura.
Caso cumpram as próximas etapas do projeto arquitetônico e saiam do papel, os complexos vão colocar 766 novos apartamentos no mercado, além de dezenas de espaços comerciais. A localização e as características dos dois empreendimentos – um ponto turístico por conta de uma praça gastronômica no caso da Melnick e uma vista privilegiada do Guaíba no caso do Zaffari – indicam unidades residenciais de alto padrão, com preço alto para a maioria da população em busca de imóveis para morar.
Essa é uma questão relevante diante da origem dos dois projetos: ambos serão construídos em terrenos que, até poucos anos atrás, eram públicos. Nos dois casos, os espaços nobres foram entregues para a iniciativa privada durante a administração de José Ivo Sartori (MDB) em troca da construção de novas penitenciárias, uma em Porto Alegre e outra em Sapucaia do Sul. A permuta, no entanto, não leva em conta os problemas de déficit habitacional, uma demanda que não será resolvida com a inauguração de condomínios de luxo.
Foto: retirada da reportagem.
