A crise recente de falta de energia na região metropolitana de São Paulo, que deixou mais de 2 milhões de residências e estabelecimentos comerciais sem luz após chuvas e ventanias intensas, é uma evidência da incapacidade do atual modelo de gestão da distribuição de energia elétrica em responder às necessidades de adaptação e resposta aos eventos meteorológicos extremos a que estamos – e ficaremos – sujeitos. Secas prolongadas, chuvas intensas e concentradas, ciclones e ventos se repetirão com a intensificação da crise climática.
O modelo adotado no Brasil nos anos 1990 de privatização do serviço já demonstrava limites e contradições, agora o que necessitamos é uma revisão radical do modelo. E não se trata apenas de definir a natureza do gestor do serviço – público ou privado – mas muito mais, é de relações federativas e competências e responsabilidades na gestão e de formas de relação entre estas, os cidadãos e o espaço público na cidade.
O principal gargalo que o sistema enfrenta é a vulnerabilidade de sua infraestrutura básica e forma de gestão. A cidade de São Paulo possui cerca de 20 mil km de fiação aérea na região metropolitana. Esta fiação, exposta às intempéries que se tornarão cada vez mais violentas, é uma das maiores responsáveis pela repetição das falhas no abastecimento, além do total descasamento entre as decisões de adensamento construtivo e a forma de atendimento desta pelo sistema de distribuição de energia e falta de relação entre esta e a política de planejamento e gestão da arborização urbana.
O imperativo do enterramento e o bloqueio legal:
A melhor forma de proteger a distribuição de energia elétrica dentro de cidades densas contra esses eventos climáticos extremos é através do enterramento das redes. Embora a Prefeitura de São Paulo tenha tentado, desde 2005, aprovar leis para obrigar o enterramento da fiação, menos de 0,3% da rede está hoje subterrânea. A experiência comprova a eficácia da rede subterrânea: o campus Butantã da USP, por exemplo, possui uma rede de distribuição interna subterrânea desde 2020. Isso fez com que, apesar da queda de 30 árvores durante essas intempéries, o fornecimento interno de energia não fosse afetado.
Foto: retirada da reportagem.
Fonte: LabCidade
