A crise climática não é mais uma ameaça distante, é a nossa realidade imediata. As recentes tempestades nas mais diversas localidades do país, com destruição e enormes prejuízos, e os recordes de temperatura e eventos extremos, ressaltados na recente repercussão da COP30, em Belém, serviram como um alerta para a urgência inadiável de ações concretas. A ciência é clara: o tempo para debates mornos se esgotou. Precisamos de medidas radicais de mitigação e, de forma igualmente crucial, de adaptação. No entanto, ao olharmos para a pauta que dominou as discussões internacionais, percebemos uma questão preocupante: o direito básico à habitação social tem sido tratado como um tema lateral.
A aprovação da Meta Global de Adaptação na COP30, em novembro de 2025, por exemplo, trouxe uma lista de 59 indicadores para medir o progresso dos países. A moradia, um pilar fundamental da segurança e dignidade humana, foi alocada dentro do indicador de infraestrutura, de forma secundária, mesmo sendo o abrigo fundamental contra as intempéries de um clima desregulado, que deveria ser encarada como um indicador de resiliência, prioritário.
Quem sente o impacto mais brutal e imediato da crise climática são, justamente, as populações mais vulneráveis e, no topo dessa pirâmide de exposição, os moradores de rua e aqueles que vivem em comunidades precárias. Para essas pessoas, a mudança climática não é uma estatística, mas uma ameaça direta à vida. Em maio de 2024, por exemplo, o Rio Grande do Sul mostrou ao país a dimensão letal dessa crise, com a pior catástrofe climática de sua história. As cheias devastadoras não só destruíram casas de comunidades ribeirinhas e periféricas, mas atingiram fatalmente a população sem teto. Enquanto o balanço oficial da Defesa Civil confirmou mais de 185 óbitos em todo o estado, as pessoas em situação de rua, que já vivem sem abrigo e em áreas de maior exposição, ficaram totalmente à mercê das águas e das doenças subsequentes, e não foram contempladas pelas soluções emergenciais.
Para quem não tem paredes, a enchente não inunda, ela arrasta e mata. Além disso, os extremos de temperatura (calor e frio intensos) continuam a ser letais em todos os centros urbanos, e as moradias em áreas de risco são as primeiras a serem varridas por enchentes e deslizamentos, enquanto a escassez hídrica prolifera doenças. Em um cenário onde a crise climática aprofunda as desigualdades, a moradia decente e segura é o primeiro e mais importante instrumento de adaptação.
É importante que os governos, em todas as esferas, compreendam que investir em habitação social de qualidade, gerida de forma integrada e não segregadora, é uma estratégia de adaptação climática de ponta. Não se trata de caridade, mas de investimento em resiliência urbana e saúde pública. Cidades bem adaptadas são aquelas que protegem seus cidadãos mais vulneráveis, garantindo que suas moradias sejam construídas fora de áreas de risco, incorporem soluções de bioengenharia e materiais que promovam o conforto térmico e a eficiência hídrica, e estejam associadas a um sistema de gestão que garanta a permanência e o pleno desenvolvimento dos moradores.
Foto: retirada da reportagem.
Fonte: Nexo Jornal
