Luiza Dulci é vereadora por Belo Horizonte, economista e doutora em sociologia.
Em outubro do ano passado, a Prefeitura de BH enviou à Câmara Municipal o Projeto de Lei 574/2025, da Operação Urbana Simplificada de Regeneração dos Bairros do Centro. O cerne da proposta é aquecer a dinâmica imobiliária e incentivar o mercado a construir mais prédios e prédios mais altos no Centro e bairros do entorno – Concórdia, Colégio Batista, Floresta, Lagoinha, Bonfim, Carlos Prates, Barro Preto, Santo Agostinho, Lourdes, Boa Viagem, Funcionários e Santa Efigênia.
É consenso que o Centro de BH pode e precisa ser mais bem aproveitado pela população e que os bairros do entorno carecem de avanços em infraestrutura urbana. É igualmente urgente sanar o déficit habitacional na cidade, que já alcança 64 mil famílias. Nessa linha, um projeto comprometido com a construção de moradia, a recuperação de imóveis antigos (o chamado “retrofit”), a preservação do patrimônio e a substituição de galpões e estacionamentos pode ser benéfico para a cidade.
Nossa leitura do PL 574 é a seguinte: nos somamos à intenção de trazer moradia para o Centro e de melhorar a vida nos bairros do entorno, porém divergimos nos caminhos e instrumentos propostos.
Há, portanto, sérios riscos de que o PL, em vez de “regenerar” o entorno do Centro, agrave problemas atuais. Esse é o sentimento expresso pela população nos poucos espaços de escuta promovidos pela prefeitura: existem muitas demandas a serem atendidas antes de se trazer mais gente para morar.
Para nós, esse debate deve ser orientado por um princípio ético: melhorar sem expulsar. Afinal, a valorização da terra eleva o valor dos aluguéis e do IPTU, atrai moradores de maior renda, torna comércios e serviços mais caros e, em último nível, aumenta o custo de vida – podendo expulsar atuais residentes, processo conhecido como “gentrificação”.
Foto: retirada da reportagem.
Fonte: O Tempo
